Livro
O ideolecto comum aos doentes com perturbacao depressiva
Joao Dinis Serro
Acta Psiquiatrica Portuguesa, Abril/Junho 2005, Vol. 51, pp. 1607-1620
Assistente hospitalar graduado de Psiquiatria
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Sumário
O autor estabelece um paralelo entre a teoria da ansiedade estabelecida desde há longa data e uma nova visão (imagem) da compreensibilidade do efeito depressivo, num sentido amplo. Realçando o trabalho da teoria depressiva de Bibring, o estadio básico do Ego, pode ser encarado como um sinal. Para Freud, a raiva seria também um sinal básico do Ego. Depois de uma profunda penetração intelectual nos conhecimentos do objecto de Malhar, o constante stress é feito através do desenvolvimento de hipermonia, conflito de ideias relacionadas com a família, romance e a própria ideação são consequência da falta de respeito por si mesmo. No final, o autor resume os cinco principais temas de doentes com perturbação depressiva na ideologia de Arieti.
Summary
The author draws a parallel between the long established theory of anxiety and a new look at the comprehensiveness of depressive affect in a broad sense. Emphasising the work of Bibring depression is posited in the ego, as anxiety, as signal. To Freud rage would be a basic signal of ego as well. After a going through on Mahler's insight on development and attainement of object constancy stress is made over development of hypermony, conflict, ideas related to family, romance and the proper ideation related to lack of self esteem. At the end, the author epitomises the five main themes of depressive patients ideology according to Arieti.
Secções do artigo10
Admitimos, tal como Brenner (1974), que a depressão pode ser conceptualizada, tal como Freud concebeu a angústia, em inibição, sintoma e angústia. Freud disse: "a ansiedade é um estado afectivo, e como tal só pode ser sentida pelo Ego, não deve ser explicada sob o ponto de vista económico. Não é criada de novo pela depressão, é reproduzida como um estado afectivo".
Uma situação de perigo é identificada, recordada e esperada como uma situação de desamparo. A ansiedade é a reacção original de desamparo no trauma, e é reproduzida mais tarde na situação de perigo como um sinal de socorro. O Ego que experimenta o trauma repete-o activamente numa versão menos intensa na esperança de ser capaz de dirigir a sua evolução.
Parece ser apenas uma extensão lógica desta teoria estrutural de ansiedade, considerar que a depressão, que é outro estado afectivo básico do Ego, possa ser encarada da mesma maneira.
Bibring (1953), foi de facto o autor que deu esta contribuição. Ele não acredita que a predisposição para a depressão seja o resultado de uma fixação oral, isto é, seja criada por feridas narcísicas no Ego com estrutura oral. Bibring diz que a frustação frequente das necessidades orais da criança dá origem a uma angústia primária e á raiva.
Se a frustração continua, em lugar de sinal para o Ego, a raiva será substituida por um sentimento de exaustão, desamparo e depressão. Esta experiência precoce de um Ego desamparado, da sua falta de poder para uma nutrição vital é provavelmente o elemento mais frequente na pré disposição para a depressão. Ele chama a atenção para o facto de não se tratar de uma fixação oral, mas de uma experiência traumática com sentimento de desamparo.
Assim, a regressão na depressão, é a regressão a um estado primário em que, para a criança, a falta de cuidado é sentida como uma ameaça narcísica que é equacionada como perda de objecto e experiência precoce de desamparo do Ego.
A obra de Bibring sendo como é o primeiro enfoque da teoria da depressão na psicologia do Eu, não responde á pergunta fulcral: como é que algumas pessoas têm capacidade de suportar a depressão enquanto outros sucumbem á doença depressiva. Certamente todos os seres humanos experimentam a tensão entre aspirações narcísicas e a percepção do Ego não ter amparo suficiente, e ser incapaz da sua realização. Porque que razão algumas pessoas aceitam as limitações do seu Ego, ou as reduzem á forma de fantasias agradáveis, enquanto outras continuam, em face da consciência das suas limitaçoes e falta de expectativa positiva, a manter o desejo de realização narcísica. Bibring, com a sua conceptualização não responde a esta pergunta. Provavelmente do seu ponto de vista egopsicológico, Bibring negligenciou a importância das pulsões agressivas. Observando esta omissão talvez seja possivel uma melhor compreensão do afecto depressivo.
Sabemos que a relação precoce entre uma mãe e o seu bébé é sempre, de alguma forma inadequada. Existe sempre uma certa experiência de frustação. Se esta experiência é muito prolongada o que se passa é que a criança fica agitada chora, fica taquicárdica, se a frustação aumenta ainda mais então surgem os impulsos agressivos, a raiva. O que é de salientar é que a raiva invariavelmente precede os sinais de regressão depressiva, a perda do tono muscular, a imobilidade, a falta de expressão facial e a transição para um estado de sono, noutras palavras, um estado de desamparo.
Torna-se forçoso admitir que os fenómenos que dão origem a esta experiência de depressão, são sempre associados a agressividade.
A raiva caminha em paralelo com a experiência de frustação prolongada, e quando esta raiva é insuficiente para mudar o ambiente dá origem, à exaustão e sentimento de desamparo.
Esta é a primeira experiência de perda de que resulta o afecto depressivo, porque é esta experiência de desamparo que dá origem á tomada de consciência da separação em relação
à mãe. A experiência de desamparo implica também uma tomada de consciência da dependência em relação a um meio circundante sempre que a criança não consegue satisfazer o seu desejo tendo procurado activamente fazê-lo.
Dizendo de outra maneira, o desamparo conduz a uma experiência de desilusão narcísica e esta dá origem ao investimento do mundo exterior de um modo agressivo.
Num trabalho recente sobre o afecto depressivo, (Mahler M.S) - Estudos sobre a separação - individuação - concluimos sem margem para dúvida que o humor básico se forma como uma propensão para reagir afectivamente. Não é só devido a factores inatos mas parece, pelo menos em parte, ser acentuado pelas experiências e vivências. Esta linha de base característica da emocionalidade da criança parece derivar do domínio de um ou outro estado de humor que é caracteristico do periodo de reaproximação.
A literatura psicanalitica recente tem muitas referências, observações e discussões sobre a angústia de separação, a perda do objecto e a depressão.
Estes conceitos estao imbrincados quer clínica quer dinamicamente. Não fica no entanto muito claro na literatura se aquilo que é referido como uma perda seja uma perda do objecto real ou uma perda intrapsiquica do objecto. A perda real do objecto de amor não ocorre com frequência suficiente para explicar a propensão tão grande, sobretudo nas mulheres, para a depressão.
Terá que ser uma perda em fantasia, isto é um conflito intrapsíquico de um tipo particular que é a causa genética para a ocorrência da depressão. Será pois preferivel examinar a natureza deste processo intrapsíquico que parece resultar neste sentimento de perda e que põe em movimento respostas afectivas de desamparo, de tristeza, de luto e de depressão. Nos estudos sobre separacão – individuação foi possivel observar reacçoes afectivas, manifestaçoes mímicas, comportamentais e verbais correspondentes ao humor depressivo ou humor eufórico, em crianças que na realidade nunca se separam do seu objecto de amor primário. Esta predisposição do humor parece estar relacionada com as vicissitudes intrapsiquicas do processo de separação - individuação. Do ponto de vista da minha hipótese, diz Mahler, o que se passa na criança é uma consequência de uma elaboração pré-determinada inevitável, da progressiva separação em relação à mãe, sobretudo do seu estado de união simbiótica.
Esta perda implica uma renúncia ou desistência de uma fantasia mais ou menos delirante de uma omnipotência simbiótica embora isto de certa forma deva ser compensado por um aumento de autonomia secundária ou narcisismo secundário.
Pelo 5º ou 6º mês de vida a criança parece reconhecer a sua mãe como objecto através do qual as suas tensões são descarregadas e os seus desejos satisfeitos. Podemos ràpidamente verificar que quando a face da mãe se aproxima do bébé este, apenas com 6 meses, toma a iniciativa do contacto e mesmo de forçar a mãe a responder. Esta primeira sub-fase da individuação decorre paralelamente com a maturação e as funções parciais locomotoras.
Envolve também o observar, para além do campo visual imediato, bem como o escrutínio do meio, a coordenação entre os movimentos dos olhos e das mãos, etc. Estas funçoes são continuamente estimuladas pela proximidade e intimidade com a mãe. O que se aprende nesta observação directa da criança nesta primeira fase é que o seu desenvolvimento libidinal aumenta com o contacto visual, tactil e auditivo, a que Spitz chamou o diálogo com a mãe.
Pois a nossa proposta é que isto é uma lei geral que se aplica também ao desenvolvimento dos afectos. Spitz observou crianças hospitalizadas, portanto privadas deste diálogo, que mostravam um quadro clíinico que na nossa opinião é de um traumatismo psíquico extremo que pode conduzir mais tarde a estados psicóticos. Spitz designou este quadro depressão anaclitica.
Com o desabrochar da criança e das suas funçoes autónomas, sobretudo na sua capacidade de estar em pé, e de se locomover, começa a sua relação de Amor com o Mundo como diz Greenacre.
Numa altura em redor do 100 mês, que marca o inicio do funcionamento do teste de realidade como funçao do Ego, começa o investimento cada vez maior nas capacidades motoras e na capacidade de explorar quer o ambiente, quer os objectos humanos que a circundam.
A elacção ou extase parece ser o afecto especifico desta sub-fase. A caracteristica primeira deste periodo de pratica e o investimento narcísico nas suas funções bem como nos objectos e objectivos da sua realidade em expansão. A par disto, o que se vê também é a relativa imprevisibilidade em relação a quedas, choques, bem como a outras frustraçoes. Á medida que o seu aparelho motor se vai desenvolvendo a criança vai-se aventurando cada vez mais para longe da mãe, e por vezes está tão absorvida nas suas próprias actividades que, por longos periodos de tempo, parece esquecer-se da presença desta, no entanto, retorna periodicamente á mãe parecendo necessitar da sua presença fisica de tempos a tempos.
A pratica da locomoção culmina no sentimento cada vez maior que se pode manter em pé com segurança, estando então no máximo do seu periodo de elação. Para alguns este estado de humor é intermitente para outros contínuo.
Durante os segundos 18 meses de idade no entanto, tem lugar viragens no investimento e economia da líbido. A criança que executou as suas capacidades, percepcionando e adaptando-se a segmentos cada vez maiores da realidade, parece também cada vez mais preocupada com as suas capacidades de performance e prazeres narcísicos. Simultaneamente com esta capacidade de diminuir o mundo á volta, atinge o ponto máximo do seu prazer que é amparado pelo seu sentimento de omnipotência mágica. O narcisismo secundário tem como seu percursor o delirio de omnipotência simbiótica da relação mãe - filho.
Durante o periodo dos 18-24 meses a criança mostra sinais da sua dificuldade perante os obstáculos que se levantam na exploração do Mundo.
O periodo de reaproximação demonstra com clareza suficiente que a separação - individuação consiste em duas linhas de desenvolvimento interligadas e complementares. Durante o período de prática e de domínio, que continuam para além dos 18 meses de idade, a individuação continua muito rapidamente, de tal forma que a criança executa a sua independência até ao limite. Por outro lado transformações cognitivas têm lugar, o que vai permitir cada vez mais a separação entre o Self e o objecto de amor.
Ao mesmo tempo que esta consciência de separação vai aumentando surge também o sentimento de que existem enormes obstáculos no caminho da sua omnipotência mágica, dos seus desejos e fantasias. É nesta altura que a criança começa a sentir que é criança, pequena, desamparada e solitária. Apesar de tentar coagir a sua mãe esta não funcionará mais com a criança como uma unidade. A criança só tem uma defesa, aperfeiçoar a comunicação verbal e o processo secundário. As exigências gestuais e a empatia pré-verbal entre a mãe e a criança não serão mais suficientes para restituir a esta o estado narcísico de bem estar. Ao mesmo tempo que toma consciência da sua separação toma também conhecimento que os seus pais, objectos de amor, também estão separados, têm intençoes diversas, outras que as da criança, isto numa altura em que em fantasia ainda admite que a mãe goza de poderes ilimitados, e então como não consegue voltar á unidade simbiótica com ela, admite que a mãe lhe retira a omnipotência que ela mãe, possui. Resta á criança reconhecer mais tarde, no periodo pós-edipiano, que ela não é de facto omnipotente e que os seus pais também não o são. Só a mãe com o seu amor e aceitação da criança, sobretudo da sua ambivalência, permitirá á
criança investir o seu Ego e o seu Proprium com uma energia neutralizada. A falta de aceitação por parte da mãe conduzirá a uma diminuição da auto-estima da criança e consequentemente á sua vulnerabilidade narcísica. A criança mostra então atitudes como ambivalência, coacção agressiva e negativismo. Mahler chama a atenção para o seguinte: - se a ambivalência for muito acentuada e prolongada, isso é um sinal de distorção do desenvolvimento emocional, uma indicação de um aumento de agressividade não neutralizada, é uma perturbação da evolução para a constância objectal.
Em estudos de reconstrução feitos em crianças que têm um humor depressivo dominante, verifica-se também que não têm um narcisismo secundário disponível para a vinculação não só com objectos como com o seu Proprium. Uma grande pressão da agressividade não neutralizada é absorvida pelo mecanismo de clivagem projecção, bem como outras defesas que protegem contra a sua hostilidade e sentimento que pode destruir o objecto de amor.
A mãe com a sua sempre renovada aceitação é suporte durante a reaproximação e o pré-requisito mais necessário para que o fiiho possa aceitar a irrealidade da sua omnipotência ajudando o seu investimento narcísico e aumentando a sua autonomia. O colapso que a criança sente em relação á sua omnipotência, as dúvidas em relação á disponibilidade afectiva dos pais, cria aquilo a que se pode chamar uma dependência hostil em relação a estes. Esta ambivalência põe em marcha defesas, como a clivagem de imagens boas e más da mãe, retroflexão da agressividade resultando numa perda de estima e sentimento de desamparo. Mahler chama a atenção para o facto de crianças que tinham vivido estadios anteriores com mais dificuldades, não tinham desenvolvido uma sólida confiança básica (Erickson, 1950), ou a expectativa confiante, (Benedek 1938), estavam mais propensos para desenvolver o afecto depressivo. De vez em quando parecem invadidos por um sentimento de desamparo, de perda e solidão.
Mahler crê que, se por acaso uma nova criança nascer nesta familia isso vai reactivar o afecto depressivo, acentuá-lo, e dar-lhe um colorido dramático. As birras, tentativas de coagir a mãe e desistências temporárias são frequentes, bem como a resignação com sentimento de impotência e rendição, nalguns casos com colorido fortemente masoquista, (A. Freud, 1936) seguido de atitudes de reaproximação e reparação. Apesar disto o desenvolvimento das funções autónomas do Ego decorre sem grandes vicissitudes.
O afecto depressivo e esta propensão para responder desta forma, cria na criança precocemente uma preocupação exagerada e prematura que provavelmente indica uma estruturação precoce da hipernomia. Mahler chama a atenção para o aspecto duplamente traumático do treino de esfincteres e a descoberta da diferença sexual anatómica entre os sexos, como factores que contribuem para a génese e propensão para o afecto depressivo, sobretudo nas mulheres.
Consideramos este trabalho de Mahler fulcral para a compreensão do afecto depressivo. Com o seu insight sobre este problema é talvez possivel tentar uma discriminação estrutural da depressão, muito embora tenhamos consciência que muitas perguntas ficarão por responder. Mahler afirma que o afecto depressivo é universal, tendo o seu lugar na sub-fase de reaproximação, etapa vivida por todas as pessoas na sua ontogénese.
Quais são então os seus universais?
- Começaria por referir que a depressão só é possivel, ou exige a presença de funções mentais simbólicas como a linguagem.
Arieti afirma que a depressão é uma emoção de terceira ordem que só pode ocorrer com a existência de um aparelho psíquico razoavelmente estruturado.
- A formação do ideal do Eu. Este é consequência directa da deflecção da auto-
estima, devido á relação hostil com o Proprium por retroflexão da agressividade e regressão narcísica.
- A formação de uma moral, ainda que arcaica, que pode olhar o Proprium, neste caso desvalorizado. Isto conduz a uma desarmonia intra-estrutural e interferência com a progressão para a fase de constância objectal. O amor e devoção transformam-se numa rendição emocional de tipo masoquista, acompanhada de uma hiper identificação uma ilusão de auto suficiência (A. Modell) e uma reacção emocional embotada.
- A formação de uma relação objectal de tipo narcísico. A rejeição que a criança sente ocorrer durante o seu crescimento pode ser tomada como uma rejeição parcial, e neste sentido permite a esperança. Vendo-se como uma pessoa má e mantendo o objecto como bom, ela mantem a esperança. Nesta esperança há sempre a possibilidade de conseguir no futuro a auto-estima perdida. Este é o desejo a que o depressivo não pode renunciar, não pode renunciar ao objecto idealizado. Talvez por isto Freud tenha considerado a depressão uma psicose alucinatória.
A experiência de dor sentida psiquicamente, ocorre quando um facto é suficientemente imperativo e conduz a uma vivência desagradável ou de desprazer. Para Arieti a depressão é causada pela perda de uma parte constituinte do aparelho psíquico. Tal como a dor física, a dor psíquica só tem um fim - a sua própria eliminação. Nas depressões mascaradas tudo se passa como se houvesse uma realização no concreto da dor, que passa assim a ser vivida propriamente no corpo. As mais frequentes são talvez as dores epigástricas, as cefaleias e as da coluna vertebral.
Por fim citaria Jacobson (1971) - Sobre a universalidade do conflito, este conflito básico parece ser sempre o mesmo em todos os estados da depressão, sejam eles minor ou mais psicóticos. A frustação provoca a raiva e leva a atitudes hostis dirigidas para o exterior para recuperar a gratificação desejada. Quando o ego é incapaz, por razões externas ou psíquicas, de realizar o seu objectivo, a agressividade é virada contra o Proprium. A perda da auto-estima é a expressão do conflito narcísico, um conflito entre uma imagem desejada e uma imagem desvalorizada, do Proprium. O estado de humor que a partir daí se desenvolve depende da intensidade da hostilidade, duração e severidade da frustação e desilusão.
A partir daqui já sabemos o que é comum às depressões e como algumas pessoas se deprimem e outras não, mas não considero dada uma explicação sobre outros aspectos, nomeadamente as suas múltiplas formas clínicas. Jacobson expõe as suas opiniões nesta matéria invocando a natureza e intensidade das pulsões envolvidos no conflito, a constituição instintiva, as qualidades dos impulsos em termos de neutralização e fusão, as fixações e regressões, a natureza dos vínculos, a expressão das disposições afectivas e as variações no investimento do Proprium e dos objectos e suas representações, uma vez que, segundo ela, todos estes factores têm um grande peso nas funções do Ego. Por fim reafirma a sua convicção de que as diferenças entre distímias (minor) e as depressoões psicóticas (major) poderão ser devidas a fenómenos fisiológicos que completarão os conceitos psicanalíticos.
Gostaria agora de me debruçar sobre a clarificação de algumas formas clínicas de depressão, sobretudo daquelas que são mais classicamente mencionadas, como a chamada depressão neurótica, termo em vias de abandono por ser incorrecto, e a depressão (major) também não necessariamente melancólica.
Outras categorias como a depressão de ajustamento e o sindrome Borderline, hoje em dia considerado uma depressão, serão totalmente excluidos desta comunicação. Também não farei referência à estrutura dos sintomas depressivos porque não são em regra objecto de interpretaçao.
Perturbaçao Distímica
Jacobson menciona alguns casos típicos de depressao "neurótica" de que tentarei dar um modelo dos aspectos comuns. Na maioria, estas
pessoas perderam na sua infância uma das figuras parentais. A resposta a esta perda objectal é específica e constitui a propensão para os estados de depressão. Estas crianças desenvolvem o que Jacobson designa por "romance familiar", que contem fantasias de admiração por pessoas ricas, dotadas e de origem nobre, que um dia se tornariam os seus pais reais, de quem se teriam separado em dada altura por razões adversas à sua vontade, e com quem poderiam tornar a viver. Na adolescência estas pessoas modificavam as suas fantasias e tentavam realizá-las na prática, procurando activamente pessoas superiores, ricas e, ao seu olhar valorizados que pudessem desejar adoptá-las. A maioria das vezes estas tentativas malogravam-se e a desilusão amorosa invadia mais uma vez estas pessoas até que nova tentativa começava.
O aspecto predominante da perda precoce do objecto é a recusa obstinada de aceitar a verdade deste facto. As pessoas duvidam, distorcem e chegam mesmo a negá-lo. No caso de crianças a quem morreu o pai alimentam a convicção inconsciente de que o pai não morreu, e têm conflitos ambivalentes intensos com a mãe sobrevivente. Por vezes pensam que o pai perdido voltará um dia. Noutros casos em que um dos pais não morreu, mas apenas se separou da familia desaparecendo definitivamente, a criança interpreta a deserção como uma reacção de uma pessoa boa a outra, a mãe com quem ficaram, que é possuidora de um péssimo carácter e falta de qualidades morais.
Para Jacobson todos estes doentes estruturam um carácter acentuadamente histérico, mesmo os homens que apresentavam traços obcessivos. A vivência de abandono era sentida como uma ferida narcísica.
Nas crianças que foram criadas em orfanatos a negação da morte dos pais é um fenómeno constante, bem como a sua solidão, e infância dominada por infelicidade e insatisfaçao. Para aqueles a quem morreu o pai, este na sua fantasia não tinha morrido, mas vivia noutra cidade por lhe ser impossível suportar a relação com a mãe. A expectativa de um dia se encontrarem ou mesmo de receber uma carta sua era permanente. Em todos os casos a negação da morte devia-se por um lado á tenra idade da criança e do seu desenvolvimento psíquico, que não suportava um luto, e a incapacidade da mãe falar com a criança acerca da morte, tão traumática para ambas. Em todos os casos esta fantasia servia para encobrir outra fantasia, que o pai tinha sido morto pela mãe durante o acto sexual e encobria também a culpabilidade oriunda da identificação inconsciente com a mãe pela sua hostilidade e actos criminosos.
Todas as histórias inventadas por estes doentes serviam para dominar as feridas narcisicas resultantes da morte do pai, que passou a ser idealizado, e permitirem lidar com a sua hostilidade, sentimento de culpabilidade e imagem do Proprium castrado. As suas expectativas de virem a encontrar o objecto perdido são reminiscentes do desejo infantil de recuperar o phalus de que ficaram privados. Sentimo-nos tentados, diz Jacobson, a falar de um pai ilusório, em analogia com um phalus ilusório. É evidente que as crianças vivem a experiência da morte de um dos pais não só como uma perda de um objecto de amor mas também como uma ferida narcísica, uma castração. Uma vez que as crianças são dependentes dos seus pais para uma nutrição narcísica e participam na sua fantasia de grandiosidade, para eles ser orfão ou criança adoptada é sentido como amargamente degradante e insultuoso.
Nestas crianças os sentimentos de hostilidade e de desvalorização causados pela perda é sistematicamente investido na mãe sobrevivente, enquanto que o pai é glorificado, engrandecido, e admirado. Serve para elevar o valor narcísico do pai, tornando-se em seguida a parte mais preciosa do seu Proprium que se perdeu e tem que ser recuperado por qualquer preço. Esta é a razã porque as crianças recusam a identificação com o sobrevivente castrado, e constroem ilusões em redor do objecto perdido, admirado e engrandecido.
Gostaria agora de citar Herbert Gross, nalgumas observações que faz sobre a depressão minor, nos aspectos de transferência e contra-transferência. Este autor diz "no 1º contacto o caracter depressivo pode ser erradamente diagnosticado como uma reacção mas o que isto é mais é um problema básico da vida em lugar de uma reacção." O afecto depressivo é usado como defesa. É um estilo de vida e é usado para ter dois tipos de efeitos, um sobre o Proprium e outro sobre as pessoas com quem se relaciona. Sobre o Proprium dá origem a certas atitudes como o sentimento que não vale a pena, que não resulta fazer seja o que for. Para os outros o deprimido provoca convicções de ter uma tarefa demasiado dura para cumprir. Ele consegue mesmo obter reconhecimento pelo seu esforço mas de facto tem pouco cometimento nas coisas que faz. Este apreço dos outros pelo seu esforço formam um ciclo vicioso, é justamente este ciclo vicioso que constitui a dinâmica psíquica porque representa uma solução de compromisso pouco satisfatória. Este compromisso aponta para um desenvolvimento deficiente do sentimento pessoal. Este ser assim é ambivalente e a sua maneira de estar no mundo carece de coesão, eles não sabem o que querem e não têm consistência nos seus actos, mas dão aos outros a ilusão de estarem envolvidos em muitos projectos. Eles sofrem sobretudo de um defeito narcísico. A projecção do seu ideal, do Eu bem distinto do seu Proprium verdadeiro dá origem ao afecto disfórico. Eles têm dúvidas acerca da sua auto-imagem e dos seus desejos.
Logo na primeira entrevista o doente expressa o seu péssimismo em relação á terapêutica o que pode criar no terapeuta um desejo de salvar aquele infeliz. Sente-se não só desafiado como terapeuta mas também receoso de falhar. Este duplo sentimento acompanhará o terapeuta se ele não compreender a sua origem. Pode sentir desejo de ser mais activo, seduzido como está, não pela tristeza que o cliente não comunica, mas por um sentimento de miséria que o cliente exprime. O terapeuta pode sentir-se tentado a ser menos empático e a prescrever medicamentos. Só então ele vai perceber como o doente lhe cria uma sensação de incómodo, de peso, e fica ambivalente, querendo ver-se livre dele.
Nesta altura ele entende que é um defeito de caracter. O doente conseguiu infectar o terapeuta com o seu conflito e esta estratégia é usada pelo impacto que tem no terapeuta, como nas outras pessoas. O doente usa a depressão para se defender da angústia. O estado depressivo é projectado no objecto.
A projecção de indole caracteropática é diferente da usada pelos psicóticos e pelos neuróticos. Transforma-se num comportamento habitual.
O interesse do terapeuta na estrutura do Ser, é dificultado pela existência da lacuna narcísica. O doente responde sempre com confusão e perplexidade como se tivesse medo que o terapeuta lhe roubasse a sua armadura de carácter. Os silêncios habituais são constantemente sentidos como uma rejeição.
A estratégia de elaboração é complexa e envolve a capacidade que o terapeuta tem de se observar, pois é atingido pelas queixas e infortúnios do doente, e a estratégia passará pela reconstrução da lacuna que estas pessoas certamente sentiram na relação precoce com a sua mãe.
Depressão Major
Para Jacobson esta depressão está relacionada com mecanismos que têm a ver com a identificação do Ego e da normatividade do Ser, necessitando-se de uma explicação da diferença entre eles.
Com a morte de alguém, e na impossibilidade de fazer um luto, tem início um conflito em torno da ambivalência, sendo o resultado do conflito uma identificação com aspectos reais do objecto, de tal forma que, a pessoa se trata a si mesma como se fosse a parte má do objecto perdido. Este termo recorda-nos a personalidade "como se" (Helene Deustsch; 1942) que é dum tipo diferente e refere-se a personalidades esquizóides. O esquizóide comporta-se como se fosse o objecto. O esquizofrénico delirante acredita conscientemente e com convicção que é outra
pessoa, e o melancólico considera-se e age contra si mesmo como se fosse o objecto. A personalidade "como se" lembra-nos o período da infância em que este comportamento não tinha um significado tão patológico, o caso da criança que imita o pai usando o seu chapéu, falando ou andando como ele, comportando-se como se fosse o pai. Embora estes comportamentos de jogo e "role-playing" se continuem até a latência, têm origem em mecanismos de identificação característicos de estadios precoces em que se constroem progressivamente os limites entre o Proprium e os objectos. Nestas fases as imagens boas e más dos objectos formam-se independentemente da realidade, não se distinguindo bem uns dos outros e têm tendência a fundir-se e a separar-se. Da mesma forma partes boas e más do seu Proprium fundem-se, bem como com as dos objectos, dando origem a fantasias omnipotentes. Sempre que a criança sente contacto fisico e intimidade agradável com a mãe a incorporação permite estas fusões que são acompanhadas de uma regressão da percepção do sentimento da realidade.
No entanto a criança não se deixa apenas passivamente influenciar pelo exterior mas toma papel activo através da imitação que é o embrião das identificaçoes do seu Ego, e portanto da formação deste. A imitação tem assim um papel importante na aprendizagem mas tem um carácter mágico e constitui a transição para a identificação. A maturação cognitiva implica no entanto que a criança abandone a imitação e a transforme numa identificação isto é; num desejo de ser como os pais no futuro. As identificações são mais ricas de significado e dirigidas com intencionalidade e eficácia, as primeiras têm mais uma qualidade mágica, enquanto que as últimas são mais reais. As relações amorosas dos adultos bem como a capacidade de empatizar sao reminiscências das identificações precoces parciais e mágicas.
Na criança estas identificações encontram um lugar seguro, um refúgio onde podem perdurar o Super-Ego e o ideal do Eu.
A formação da normatividade é pois um exemplo típico do mecanismo de regressão ao serviço do Ego. Mesmo a lei interna mais maduro tem características mágicas. Representa uma realização mágica do desejo, mas o Ego tem consciência disso. Sabemos que a constituição da normatividade significa a solução final do mito universal edípico. Estas formações reactivas grandiosas realizam não só a renúncia aos desejos sexuais infantis em favor de intençoes sociais e culturais, mas representam a solução dos conflitos de ambivalência e desejos narcísicos da criança.
A tendência da criança para desvalorizar os pais na forma de pessoas agressivas, maus, sexuais ou frágeis, castrados e sujos, é transformada na tendência para os idealizar na forma de pais bons, fortes, grandiosos e assexuados. As identificações assumem agora a forma de deveres e proibições, desaprovações e reconhecimentos.
O desenvolvimento de funções de crítica e aprovação na hipernomia do paciente permite a neutralização de forças agressivas e libidinais.
A constituição de normas é o instrumento que o Ego utiliza no domínio das feridas narcísicas que o Ego sofre não só pela sua capacidade crescente de perceber a realidade como pelas frustrações e desilusões a que está sujeito.
A formação do Super Ego é uma mudança, uma transformação das relações do ser com o outro, socializante e regulador.
Jacobson relata assim um caso de depressão melancólica. O inicio da doença era sempre um estado de irritabilidade e hostilidade virada para o exterior. Em alguns casos a hostilidade desaparecia e surgia a depressão. De inicio a doente queixava-se do marido falando da incompetência, agressividade, voracidade, egoísmo e falta de moral. Insidiosamente as mesmas queixas passavam a ser dirigidas para ela mesma.
Um dia disse: "Estou tão confusa que não sei se me queixo do meu marido se de mim, até parece que somos a mesma pessoa, mas eu tenho consciência que não somos, somos apenas parecidos na dependência. Somos como duas crianças cada um esperando que o outro seja como uma mãe. Agora já não lhe posso dar nada. Só
quero que tomem conta de mim talvez por isto estou doente. Nao tenho capacidade para mudar e a minha doença faz com que ele não me ame."
O conflito é claramente ambivalente, caracterìsticamente estas duas pessoas tinham uma relação quase simbiótica, e a percepção que tinham um do outro não era muito diferente da realidade.
Eram de facto semelhantes nas suas necessidades narcísicas. Do ponto de vista do carácter a sua patologia narcísica pré-genital desenvolveu-se de forma que um e outro se complementassem. Esta paciente melancólica trata-se a si mesma como se fosse a pessoa mais desvalorizada do mundo mas de facto durante a sua depressão, torna-se egocêntrica e egoísta tal como ela descreve o marido. Estas atitudes dos melancólicos não são identificações do ego com o objecto de amor (a mãe). Devido ao seu narcisísmo patológico e escolhas masoquistas, as atitudes adesivas destes doentes são iguais as dos seus companheiros (imitação). Isto é muito diferente do que se encontra na chamada depressão neurótica. Esta identificação com o objecto ambivalente justifica as torturas que o Ser inflige a si mesmo, bem como a sua distorção da realidade. A sua fixação infantil no estadio de participação mágica no poder e valor do objecto de amor idealizado predispõe o Ego para estas regressões. A desilusão provocada induz uma enorme hostilidade é como se a mente tivesse o poder de transformar o companheiro no mau objecto desvalorizado. O medo de destruir o objecto sobretudo a sua parte boa, de que tanto depende, conduz a uma retroflexão da agressividade.
Portanto não se trata de uma identificação nem de uma introjecção. É uma introjecção patológica em que há uma absorção de uma má imagem do companheiro, formando-se a partir desta uma má imagem do Proprium, e por fim a idealização do objecto por projecção das partes boas do Proprium. As acusações que estes doentes dirigem a si próprios são as críticas da sua moral contra o Ego. Uma doente dizia: "Quando me ouço nas acusações que me faço é como se ouvisse as acusações da minha mãe. Era uma mulher maravilhosa, forte mas muito severa e muito crítica. Eu dependia dela como dependo agora do meu marido".
No entanto os esforços para resolver os conflitos de ambivalência continuam e falham, e um novo estado do Ego surge, um desinvestimento progressivo dos objectos e do mundo em geral.
O ego deixa de compreender o mundo á sua volta. O Ego isola-se, torna-se funcionalmente autista. O mundo perdeu todo o significado. A inibição psicomotora instala-se na mente. Mas como característica fundamental deste ego mantem-se, a sua dependência. Esta é a razão para um último estado do Ego, na sua luta contra o vazio autístico, recria um objecto que tem as características da sua mãe, o poder, a indestrutibilidade, a crueldade e o sadismo.
O ego é então uma vítima da sua hipernomia por si mesmo recriada: - a inferioridade, o não prestar e o desamparo encontram justificação na realidade devido á diminuição das funções do Ego.
Arieti, numa monografia recente sobre a depressão, em que examina profundamente este síndrome, exprime o seu ponto de vista baseando-se nas teorias cognitivas da formação de constructos. De acordo com esta teoria a pessoa avalia o meio que o rodeia, não em termos de reacções a circunstâncias da vida mas em termos de construções, isto é, a pessoa vê aquilo que mais deseja ver.
Para Arieti cinco constructos caracterizam a depressão major
1. A dependência
É uma forma de lidar com a perda do objecto, tornando-se o Proprium mais infantil. Se a criança se torna agressivamente dependente, a mãe, ou outra pessoa serão forçadas a criar uma atmosfera, regressiva. Mais tarde estas pessoas tornam-se quase parasitas dos seus companheiros, fazendo constantes demandas. A sua imagem é de fragilidade, fraqueza, dúvida e pessimismo, estando estes sentimentos do Proprium relacionados com a oralidade.
2. Transformação dominante
É um constructo que confere ao companheiro do depressivo o carácter de exclusividade, como se para o deprimido não existisse mais ninguém (negação). O deprimido espera dele aceitação, reconhecimento, amor e respeito e tem para com ele uma complacência excessiva. Em regra, as pessoas normais relacionam-se com múltiplos objectos e até com grupos. Para o deprimido a relação é de facto diádica.
A imagem que o doente tem de si é a de uma criança que é má e não presta. Esta transformação dominante ou significante tem analogias com a transformação malevolente dos paranóides.
3. Desejo de sucesso e êxito
Em muitas situações o autor relata que a criança acredita que poderia voltar a ser amada se obedecesse, mas mais do que isso, se investisse os seus esforços num projecto. Para uns é ser um grande cientista, industrial, escritor, uma pessoa famosa, para outros é encontrar e devotar-se a um romance, e para outros ainda é uma missão.
Embora esta estratégia, de início visasse placar o objecto dominante, depois transforma-se num objectivo autónomo. A pessoa dominante perde a configuração e surge o objectivo dominante. O doente começa a viver exclusivamente para alcançar esse objectivo, dando de si uma imagem de egoísta centrado e absorvido em si mesmo.
4. Ressentimento
Nasce na criança porque o objecto dominante não deu o suficiente, ou é exageradamente exigente. Há crises de raiva e rebelião e por vezes mesmo violência. A raiva e ressentimento são os causadores do sentimento de tristeza. A sua origem está no conflito subjacente á depressão, impulsos sádicos raramente são passados ao acto e a repressão é a defesa mais frequente contra estes impulsos. Para Tellenback o ressentimento dá origem aos traços de carácter que ele considera serem típicos do depressivo, a ordenalidade e a meticulosidade.
5. Parentificação dos objectos
Arieti considera que este mecanismo é o mais típico da depressão bipolar. A criança sente que a identificação com os pais é uma tarefa árdua quase impossível e, sem tomar consciência introjecta outros adultos, como tios, avós, amigos, etc.
Não só há um exagero de introjecçao de adultos, como, adultos periféricos se transformam em figuras parentais. Este facto conduz em nossa opinião ao conhecido fenómeno de hipersintonia dos depressivos com o mundo objectal que os rodeia. Também a sua forma de pensar exageradamente convencional pode ser devida a este facto. É como se o depressivo estivesse forçado a formar uma identidade á custa de todo um grupo social. Daí o seu "esprit de corps" mencionado por Arieti.
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